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1º GRAU - AULA Nº 3
1º GRAU - AULA Nº 3

Tendo reavivado esses significados, em linhas gerais e sintéticas, deixamos de lado, agora, essa "raiz afra" e vamos ao encontro do que é, genuinamente, nosso, bem brasileiro — a "raiz" ameríndia ou de nossos índios, o "adjunto da Jurema"... para que, depois, possamos encontrar a verdadeira Umbanda.

 

Então, vamos recordar, também, de uma maneira simples, em linhas gerais, honestamente, sem certas deturpações que nossa história "acolheu" das crônicas dos Jesuítas e outros (interessados em deturpar ou confundir aquilo que encontraram em matéria religiosa, na mística ou na tradição de nossos aborígines, particularmente dos tupy-nambá, dos tupy-guarany), que pretenderam catequizar os negros e os nossos índios daquelas épocas.

 

Saibam vocês, meus irmãos umbandistas, brasileiros ou não, que os nossos ÍNDIOS, especialmente os TUPY-NAMBÁ, os TUPY-GUARANY etc., pelas alturas do ano de 1950, não ERAM TRIBOS OU UM POVO PRIMITIVO QUE ESTIVESSE NA INFÂNCIA DE SUA EVOLUÇÃO. Quem supôs isso, foram os brancos conquistadores.

 

Não tiveram capacidade para verificar que, em vez de ser um povo primitivo, era, sim, um POVO ou uma raça tão antiga, que se perdia por dentro dos milhões de anos sua origem.... Também, eles - os portugueses que aportaram com Cabral e mesmo, posteriormente, nas terras dos brasis, não vieram para estudar a antiguidade, a cultura, a civilização etc., de nossos aborígines...

 

Os Tupy-nambá, os Tupy-guarany, como ficou constatado muito depois, por inúmeras autoridades e estudiosos pesquisadores, era um povo que estava em franca decadência, isto é, no último ciclo de sua involução ou decadência...

 

Para que você, meu irmão umbandista, entenda isso, de maneira simples, atente a essa verdade: é "ponto fechado", são fatos históricos, são verdades ocultas ou são dos ensinamentos esotéricos que, toda Raça surge, faz sub-raças, evolui sob todos os aspectos e, depois, entra em decadência, para dar lugar a outra nova Raça.

 

É preciso que compreendamos essa questão de decadência das raças. O que tem acontecido é o fenômeno das "migrações espirituais" ou seja: os espíritos vão deixando gradativamente de encarnar numa raça, ou melhor, na última sub-raça, para irem animar novas condições, em novos movimentos de novas correntes reencarnatórias, para se constituírem em nova Raça. Assim, o que os espíritos abandonam, obedecendo as diretrizes de uma Lei Superior, Cármica físicos de uma raça e sua espécie vai diminuindo, diminuindo, por falta do dinamismo das reencarnações, até se extinguir ou na melhor das hipóteses, conserva os remanescentes atrasados, porque os outros, a maioria, os mais adiantados não voltam mais.

 

Portanto, a Humanidade, obedecendo à Lei dos Ciclos e do Ritmo, evolui constantemente, porém através de várias Raças. Algumas dessas Raças já nos precederam e passaram por duas fases: uma, ascendente e de progresso e outra, descendente ou de decadência.

 

Foi, dentro desse critério, desse conceito, dessa verdade, que a antiga tradição de todos os povos atesta a passagem pela face da terra de Raças assim qualificadas: 1º a Raça pré-Adâmica; 2º a Raça Adâmica; 3º a Raça Lemuriana; 4º a Raça Atlanteana; 5º a Raça Ariana, que é a nossa, a atual, no início de sua Quinta -Ronda Cármica etc.

 

Porque 7 são as Raças-raiz, 7 são as Rondas Cármicas, 7 são os Ciclos evolutivos, pelos quais, terá de passar toda a Humanidade. Portanto, já passou por 4 dessas condições e está na 5ª; falta ainda passar por mais 2 Raças, 2 Rondas e 2 Ciclos, que virão no futuro, daqui a milhões e milhões de anos.

 

Foram diversos os fatores ou as causas que contribuíram para a decadência e consequente desaparecimento dessas Raças pré-históricas, com suas civilizações: causas psíquicas ou morais, físicas, cósmicas (cataclismos), biológicas, mesológicas etc.

 

As suas civilizações - todos os documentos, todos os códigos, todos os ensinamentos da antiga tradição o atestam - foram adiantadíssimas, sob todos os aspectos.

 

Foi, portanto, um povo, os tupy-nambá, os tupy-guarany etc. - já na última fase de acentuada decadência da raça, ou seja, dentro das condições acima citadas, porém ainda com os vestígios positivos de uma avançada civilização, que os portugueses encontraram no Brasil do ano de 1500...

 

O povo dos tupy-nambá, dos tupy-guarany, da era pré-cabraliana, era tão adiantado, tão civilizado, quanto os outros povos que habitaram a América do Sul – na época dêles - assim como os Maias, os Quíchuas etc.

 

Suas concepções, sua mística, enfim, sua Teogonia, era de grande pureza e elevação, somente alcançada, pelos que já vinham dentro de uma velhíssima maturação espiritual.

 

E a prova insofismável disso era a sua língua o nheengatu, o idioma sagrado, a língua boa, incontestavelmente um idioma polissilábico.

 

O nheengatu - o idioma sagrado dos tupy-nambá, dos tupy-guarany – revela claramente, em sua morfologia, em seus fonemas, no seu estilo metafórico etc., ter sido uma língua-raiz, polida, trabalhada através dos milênios. Foi tão bem trabalhada essa língua polissilábica, que se presta às mais elevadas variações ou interpretações poéticas. Dela derivaram diversos idiomas, também considerados antiguíssimos.

 

Vamos, então, verificar por dentro de sua teogonia a pureza de suas concepções sobre as coisas Divinas etc., pois os tupy-nambá, os tupy-guarany eram, sobretudo, um povo monoteísta.

 

Acreditavam, adoravam a um Deus-Supremo sobre todas as coisas, a quem chamavam com muita veneração de TUPAN.

 

TUPAN ou TUPÃ de tu, que significa ruído, estrondo, barulho e pan, que significa ou exprime o som, o estrondo, o ruído feito por alguém que bate, que trabalha, que malha etc.

 

TUPAN era, portanto, o Supremo Manipulador, isto é, Aquele que manipula a natureza ou os elementos. É o Divino Ferreiro que bate incessantemente na bigorna cósmica. Era considerado, sem dúvida alguma, o Supremo Poder Criador.

 

Veneravam a GUARACY, YACY e RUDA (ou Perudá), como a tríplice manifestação do poder de Tupan. Eram atributos externos.

 

GUARACY o SOL — de guará, vivente, e cy, mãe. Davam essa dupla interpretação: Pai ou mãe dos viventes (no sentido correto de que o Sol era (e é) o princípio vital, que animava todas as coisas da natureza, o mesmo que a luz que criava a vida animal etc. Guaracy era, sem dúvida, a representação visível, física, do Poder Criador que, através dele, criava nos elementos da própria natureza, as coisas, os seres etc. Enfim, era o elemento ígneo — o pai da natureza.

 

Por isso — diziam — dele, Guaracy, saía tatauy, as flechas de fogo de Tupan, os raios do céu que se transformavam em tupacynynga, o trovão. Por causa disso é que certos interpretadores "ligeiros" deram Tupan como sendo, puramente, o "deus do trovão...

 

YACY — a LUA — de ya, planta e cy, mãe ou progenitora: era a mãe dos Vegetais ou ainda a mãe natura.

 

RUDÁ ou Perudá — o deus ou divindade que presidia ao AMOR, à reprodução. Rudá era evocado pelas cunhãs (mulheres), em suas saudades, em seus amores, pelos guerreiros ausentes, para que eles só tivessem pensamentos e coração para recordá-las.

 

E para reafirmar esse tríplice conceito teogónico, os payé (sacerdotes) ensinavam mais que, Guaracy representava o Eterno Masculino, o princípio vital positivo quente de todas as coisas. E Rudá era o intermediário, isto é, o amor que unia os dois princípios na "criação da natureza"...

 

Acreditavam mais em MUYRAKITAN, ou Murayrakytan, termo oriundo de uma língua matriz, de tal antiguidade, que "somente Tupan era quem podia tê-la ensinado à raça mais antiga de toda a Terra". Essa língua era o ABANHEENGA, que surgiu com a primeira raça que nasceu na região de brazilian (Não pretendemos, nesta singela obra, nos estender, com — e das Américas estudos ou provas, sobre a antiguidade do Brasil — os brasis, o brazilian dos primitivos morubixabas. Todavia, os que quiserem ver como a História do Brasil — e da América — está "incerta", adulterada, podem recorrer às obras de reconhecidas autoridades, cientistas internacionais, assim como: Lund, Ameghino, Pedberg, Gerber, Hartt, H. Girgois etc., bem como, nas obras de Alfredo Brandão, Domingos Magarinos e outros. Através de toda essa literatura, científica, histórica etc., se comprova que: a primeira região a emergir do pélago universal - das águas oceânicas — foi o Brasil; que o homem surgiu na era terciária e não na era quaternária, como é do ensino clássico - aqui no Brasil; que a escrita mais antiga de toda a Humanidade tem sua origem na primeira raça que surgiu na primeira região do planeta Terra, que adquiriu as condições climatéricas para isso - o Brasil, isto é, o seu Planalto Central...), conforme reza o TUYA-BAÉ-CUAÁ — a Sabedoria dos Velhos Payé (do que falaremos adiante).

 

Muyrakitan ou Murayrakitan se decompõe assim: de mura, mar, água; yara, senhora, deusa, e kitan, botão de flor. Portanto, pode ser interpretado corretamente assim: Deusa que floriu das águas, Senhora que nasceu do mar, Deusa ou Senhora do mar.

 

Veneravam muito essa Divindade, a quem prestavam um culto todo especial. Acreditavam em seus poderes mágicos e terapêuticos, através de seu itaobymbaéespécie de argila de cor verde, uma substância nativa, colhida no fundo de certos lagos, à qual transformavam num poderoso amuleto, que adquiria a forma de um disco.

 

Os itaobymbaé só podiam ser colhidos e preparados pelas ikannyabas (as cunhãtay ou moças virgens que eram votadas, desde a infância, como sacerdotisas do culto de Muyrakitan, o qual era vedado aos homens. Posteriormente, isto é, no período da decadência, se transformou no culto da Yurema, dito na adaptação do elemento branco como o "adjunto da Jurema").

 

Essas sacerdotisas eram as únicas criaturas entre os tupy-guarany que podiam preparar esse talismã e o faziam assim: esperavam sempre que YACY, a lua, estivesse cheia, estendendo a sua luz sobre a placidez das águas do lago escolhido pelas ikannyabas, que, dentro de uma severa preparação ritualística e mágica, para ele se dirigiam. Esse preceito implicava na passagem pela árvore da Yurema verdadeira, onde invocavam ou imantavam os fluidos magnéticos da lua, através de cânticos e palavras especiais sobre determinado número de folhas, para serem mastigadas por elas, na ocasião de mergulharem no lago.

 

Assim, enquanto algumas dessas ikannyabas mergulhavam, as outras ficavam cantando certas melopeias rítmicas acompanhadas do termo mágico ma-ca-uam. Quando uma ou outra emergia com a substância maleável — a argila verde — as outras colocavam-na em pequeninas fôrmas, já com o formato de um disco, com um orifício no centro.

 

Depois de recolhida a quantidade necessária, todas elas ficavam à beira das águas em cerimônia especial, uma espécie de encantação mágica, toda dedicada às forças das águas — a Muyrakitan, até que Guaracy, o Sol, começasse a nascer, a fim de endurecer com seus raios de luz a dita substância, para ficar como itaobymbaé. Esses talismãs tomavam uma consistência tão rija, que nada mais poderia ser feito ou talhado sobre eles.

 

Esses amuletos de Muyrakitan eram verdes, verdes-claros e os mais preciosos eram os de cor branca e todos eram de uso exclusivamente feminino e usados na orelha esquerda das cunhãs ou mulheres.

 

O seu equivalente para os homens era o TEMBETÁ, um talismã de nefrita verde, em forma de T, que os índios traziam pendente no lábio inferior, através de uma perfuração.

 

Tembetá, que se originou de tembaeitá, de Tê ou T, o signo divino (gravado nas pedras sagradas) da cruz (de curuça); de mbaé, objeto, e de itá, pedra. Pode ser interpretado corretamente assim: cruz feita de pedra (em sentido sagrado).

 

O tembetá era um talismã de Guaracy — o Sol — preparado pelos payé ou pelos karayba, para que imantasse o raio, o fogo do céu, enfim, a energia solar. Era o símbolo mágico do "deus-sol". Também preparavam outros amuletos que tomavam a designação de itapossangas, inclusive os que eram feitos ou que recebiam a força de YARA — a mãe d’água.

 

A muyrakitan ou o itaobymbaé e o tembetá juntos representavam a força mágica de TUPAN — o Deus ÚNICO.

 

Agora, meu irmão umbandista, você já deve estar entendendo melhor a questão da "raiz" Ameríndia ou de nossos índios. Mas vamos prosseguir, vamos ver o que significava, entre os tupy-nambá e os tupy-guarany, daquele glorioso passado o TUYABAÉ-CUAÁ...

 

Tuyabaé-cuaá - a sabedoria dos velhos payé, era precisamente a tradição mais oculta, conservada através dos milênios, de payé a payé, ou seja, de mestre a mestre, de mago a mago, a qual conjugava todos os conhecimentos mágicos, terapêuticos (o caa-yary), fenomênicos, espiríticos, ritualísticos, religiosos etc.

 

Essa tradição, esses ensinamentos, essas práticas mágicas, terapêuticas, o mistério das plantas na cura, a interpretação misteriosa sôbre as aves, tudo isso era tuyabaé-cuaá.

 

O PAYÉ era justamente o mago mais elevado, dentro da tribo. Conhecia a magia a fundo, praticava a sugestão, o magnetismo, o hipnotismo e, sobretudo, era um mestre no uso dos mantras (É interessante verificarmos que, hoje em dia, nenhuma Escola conhece mais o segredo dos mantras. Apenas, dentro dos mais altos graus, ensinam certas vocalizações com as vogais doutrinando que "mantras são vocalizações uma coisa infantil Isso não especiais que se imprimem às palavras, num cântico" resolve nada, em matéria de magia, na movimentação da força dos elementais. Aprendemos, nós, dos "caboclos" que mantras são vocalizações especiais que se imprimem sobre certos termos, isto é, sobre palavras especiais). O Karayba não tinha a categoria de um payé; era tratado mais como feiticeiro, isto é, aquele que se dava a práticas de fundo negro etc. Posteriormente, confundiram um com o outro.

 

Todo movimento espiritual, mágico ou de fenômenos astrais que pudesse afetar a vida da tribo era coordenado pelos payé, que influenciavam diretamente o morubixaba, que, como chefe da tribo, praticamente nada fazia sem consultar o payé, que por sua vez também ouvia os anciãos.

 

Esses velhos magos da sabedoria os pajés, como se grafou depois — conheciam o mito solar, ou melhor, os Mistérios Solares (simbolizados no Cristo Cósmico), ou seja, a lei do verbo divino, tanto é que jamais se apagou nos ensinamentos de tuyabaé-cuaá o que a tradição remotíssima de seus antepassados havia legado sobre YURUPITÃ, SUMAN e YURUPARY e exemplificavam tudo, revelando o mistério ou o sentido oculto da flor do mborucayá (o maracujá), a par com a interpretação que davam a curuçá - a cruz.

 

Dentro da tradição, se recordava que, num passado tão longínquo quanto as estrelas que estão no céu, surgiram, no seio da raça tupy, iluminada pelo "deus-sol" uma criança loira, que disse ter sido enviada por Tupã. Falava de coisas maravilhosas e ensinava outras tantas. Recebeu o nome de YUPITAN.

 

Assim, cresceu um pouco entre êles e um belo dia, também iluminado pelo sol, desapareceu. Porém, antes disso, disse que noutra época viria SUMAN e depois YURUPARY. Realmente o termo yupitan tem um significado profundo.

 

YUPITAN — de yu, loiro, doirado, e pitan, criança, menino, significa, na antiguíssima língua matriz, o abanheenga, criança ou menino loiro iluminado pelo sol. Davam-lhe também o nome de ARAPITÁ — de ara, luz, esplendor, e pitã, criança etc., e significa o filho iluminado de Aracy, de ara, luz, e cy, mãe ou progenitora, origem etc.

 

Depois, muito depois (reza a tradição) de terem passado algumas gerações, vindo do lado do Oriente, apareceu um velho de barbas brancas, entre os tupy-nambá, dizendo-se chamar SUMAN (ou SUMÉ), que passou a ensinar a Lei Divina e muitas coisas mais, de grande utilidade. Ele dizia, também, que foi Tupan que o tinha mandado. Suman também, certo dia, se despediu de todos e pôs-se a caminhar para o lado do Oriente até desaparecer, deixando entre os payé todo o segredo de tuyabaé-cuaá e assim ficou lembrado como o "pai da sabedoria"...

 

Entre os tupy-guarany, também foi constatado a tradição viva, positiva, sobre YURUPARY — o seu Messias (possivelmente, uma das encarnações de Cristo Planetário).

Yurupary: de yuru, pescoço, colo, garganta ou boca, e pary, fechado, apertado, tapado, significa o mártir, o torturado, o sofredor, o agonizante. Yurupary, na teogonia amerígena, foi o filho da virgem CHIÚCY (de chiú, pranto, e cy, mãe), a mãe do pranto, uma máter dolorosa que viu seu filho querido ser sacrificado porque pregava (tal e qual JESUS) o amor, a renúncia, a igualdade e a caridade.

 

YURUPARY foi, portanto, entre os tupy-guarany, um MESSIAS e não o que os jesuítas daqueles tempos — o "diabo" (Tal e qual fez com os africanos, a Igreja também quis fazer assimilações entre os nossos índios com seus "santos". Os jesuítas fizeram uma tremenda força, para "identificar" Suman ou SUMÉ com o "santo Thomé ou Tomé", deles. Mas não "pegou" de jeito algum... Sobre a tradição de Yurupary, o Cel. Sousa Brasil, no tomo 100 do vol. 154 da Revista do Instituto Histórico – 2º, 1926, dá testemunho irrefutável dessa venerada tradição que ainda encontrou entre os nossos índios). Tanto é que se perde no interpretaram passado de sua remotíssima tradição esse tema de um Messias, da cruz e de seu martírio. Por isso é que veneravam a curuça - a cruz - de curu, fragmento de pau ou de pedra, e çá, gritar ou produzir qualquer som estridente. Curuçá, em sentido místico, significa cruz sagrada, porque recebeu o sofrimento, o grito do agonizante ou a agonia do mártir. Em certas cerimônias, os payé, depois de produzirem o fogo atritando dois pedaços de pau, os cruzava (para formar uma cruz) para simbolizar o Poder Criador — O  FOGO SAGRADO...

 

E foi por causa disso, desse conceito, desse conhecimento, que eles - os índios - receberam com alegria, como amigos, como irmãos, aos portugueses de Cabral, porque nas velas de suas naus estava desenhada uma espécie de cruz. Pensaram que - segundo uma antiga profecia — êles vinham para ajudá-los... e como se enganaram...

 

Mas, voltemos a falar sobre os conhecimentos dos payé. Como já dissemos, eram tão profundos os conhecimentos desses magos, tinham conservado tão bem dentro da tradição a sabedoria de Sumé, que quando queriam simbolizar para os morubixabas, para os guerreiros, para as cunhãs etc., a "divina revelação da natureza", isto é, a eterna verdade sobre Aquele enviado de Tupã, que vinha sempre, desde o princípio da raça e que entre eles veio como Yurupary, exemplificavam esse mistério, tomando de uma flor de mborucayá...

 

O mborucayá (ou maracuyá maracujá, a passiflora coerulea) revela em sua flor a coisa sagrada; ela obedece a Guaracy — O sol — que é filho de Tupã. Quando êle nasce, ela vive, se abre e mostra seus mistérios e quando Guaracy morre (se esconde no ocaso), ela se enluta, se fecha (é a questão que a ciência denomina de Heliotropismo ou tropismo — pelo Sol).

 

Vejam (continuavam dizendo), a flor do maracuyá guarda a paixão, o martírio de Yurupary; ela tem os cravos, a coroa, os açoites, a coluna e as chagas... E assim, reavivava na lembrança de todos os conselhos de seu Messias, de seu Reformador - o filho da virgem chiúcy (o próprio termo Mborucayá diz tudo em seu significado: mboru que significa tortura, sofrimento, martírio, e cuyá o mesmo que cunhã, mulher. Então temos: martírio da mulher).

 

Assim eram os payé daqueles tempos. Conhecedores da magia, praticavam também todas as modalidades da mediunidade. E eram mais seguros - sabiam o que faziam e porquê - do que os "pretensos" pais-de-santo ou os tais "médiuns-chefes" de hoje em dia... Tomavam precauções especiais sobre os médiuns e quando queriam que as mulheres que tinham o dom, profetizassem, isto é, caíssem em transe mediúnico, primeiro envolviam-nas no mistério do caa-timbó ou timbó, isto é, nas defumações especiais de plantas escolhidas, depois emitiam o mantran próprio para as exteriorizações do corpo astral — o termo ma-ca-uam, dentro de vocalizações especiais e rítmicas. Logo, aplicavam sobre as suas frontes o mbaracá. Elas caíam como mortas, eles diziam palavras misteriosas e elas se levantavam, passando a profetizar com os Rá-Anga — os espíritos de Luz... Mas o que era o Mbaracá? O mbaracá ou maracá era um instrumento que produzia ruídos ou sons especiais. Ele falava, respondia, sob a ação mágica dos payé. Enfim, era um instrumento dotado de um poder magnético e era, positivamente, um canal mediúnico (Afirmamos que era um instrumento de poder magnético, porque tinha seu preparo feito sob as forças da magia dos astros. O maracá, em si, era uma espécie de chocalho, manipulado do fruto conhecido como da cabaceira - a cucurbita lagenaria e dentro desse fruto (dessa cabaça) eram colocados certas pedrinhas ou seixos. Essas pedrinhas eram amuletos ou itapossangas especiais, inclusive o talismã de muyrakitan (o itaobymbaé), bem como o tembetá. Tanto empregavam esse maracá para os efeitos mágicos, como para os fenomênicos ou da mediunidade, para fins hipnóticos, isto é, para ativar o ardor dos guerreiros, no combate). Jamais explicaram ao branco, como procediam para comunicar esses poderes aos mbaracá, em suas cerimônias de bênção, batismo e imantação... Testemunhou essas cerimônias e esses poderes, Sans Standen, um alemão que foi aprisionado pelos tupy-nambá, durante muitos anos e que pôde assistir a esses fenômenos produzidos pelos payé. Uma outra testemunha insuspeita também presenciou os poderes mágicos de um karayba e esse foi o padre Simão de Vasconcelos, que relata no livro II das Chrónicas da Companhia de Jesus do Estado do Brasil o caso da clava sangrenta. Disse ele: "um tal carahyba fixou duas forquilhas no chão, a elas amarrou uma clava enfeitada de diversas penas e depois andou-lhes em tôrno, dançando e gesticulando num cerimonial estranho, soprando e dizendo-lhes frases. Logo depois dêsse cerimonial, a clava desprendeu-se dos laços e foi levada pelos ares até desaparecer no horizonte, voltando depois, pelo mesmo caminho, à vista de todos, visando a colocar-se entre as forquilhas, notando-se que estava cheia de sangue".Isso no terreno da magia. Na terapêutica eram mestres na arte de curar qualquer doença - muitas das quais, até o momento a medicina oficial tem considerado incuráveis - pelo emprego das plantas, ervas ou raízes. Ao segredo mágico e astral de preparar as plantas curativas, denominavam de caa-yaryCaa-yary também era o espírito protetor das plantas medicinais e aquele que se votava a ele, na arte de curar, não podia nem ter relações com mulher, tal o formidável compromisso que assumia. Quando o branco ambicioso quis saber o segredo de caa-yary, os payé, os karayba, diziam que era o avô da erva - o mate, para despistá-lo. Os payé (convém repisarmos) faziam constantemente uma espécie de sessão para fins mediúnicos, ou seja, para evocarem Rá-Anga - os espíritos de luz - a qual denominavam de GUAYÚ, que se processava sob cânticos e danças rítmicas (completamente diferentes dessas batucadas que brancos civilizados que se dizem "babás e tatas" fazem, hoje em dia). Antes desse ritual mediúnico, tinham um particular cuidado no preparo dos timbó a serem usados, isto é, faziam os defumadores propiciatórios para afastar ANHANGÁ, que era o espírito das almas penadas, atrasadas etc., era, enfim, "mal comparando" o mesmo que o tal "diabo" dos católicos e o exu-pagão da quimbanda

Essa cerimônia ou ritual dito Guayú era sempre feita, para tirar guayupiá – a feitiçaria, de alguém...

 

Bem, meu irmão umbandista, cremos já ser o suficiente o que acabamos de recordar sobre a "raiz" AMERÍNDIA. Pelo que você acabou de ler, deve ter-se inteirado de seus aspectos essenciais.

 

MISTÉRIOS E PRÁTICAS DA LEI DE UMBANDA

2º EDIÇÃO LIVRARIA FREITAS BASTOS S.A.

W. W. da Matta e Silva